O Guardião do Campo - A Maldição do Espantalho

🌾 O Guardião do Campo

Minha avó sempre dizia uma coisa que eu nunca levei a sério: “Nunca olhe para o espantalho depois da meia-noite”. Ela falava que aquele espantalho não estava lá apenas para assustar pássaros, mas para manter alguma coisa presa — algo que não deveria andar por aí.

Por anos, achei que era só mais uma história. Até que uma noite, acordei de repente. O vento lá fora estava mais forte, mais frio. Fui até a janela e olhei para o campo. O poste de madeira onde o espantalho sempre ficava estava vazio.

As Pegadas de Palha

Senti um arrepio subir pela espinha ao ver pegadas saindo do meio do milho, seguindo diretamente para a porta dos fundos da minha casa. Meu corpo congelou. Três batidas secas ecoaram na madeira. Olhei pela janela da cozinha: não havia ninguém, apenas palha espalhada no chão.

Ao me virar para correr, ele estava lá. Parado no canto da sala. Alto, magro, braços tortos e roupas rasgadas. O rosto era um saco de estopa costurado, com um sorriso torto e olhos vazios, negros e profundos, que pareciam me atravessar.

O Ritual da Troca

Ele não se mexia, apenas observava. Até que, lentamente, virou a cabeça na minha direção e, com uma voz seca e arranhada — feita de vento e morte —, sussurrou:

“Agora é você quem vai para o meu lugar.”

Meus pés grudaram no chão. O espantalho começou a caminhar devagar, deixando cair palha e manchas escuras de sangue seco. Meus olhos embaçaram. A última coisa que vi foi a costura do rosto se abrindo, revelando uma boca cheia de dentes longos, finos e afiados.

O Novo Sentinela

Quando acordei, não estava mais no meu quarto. Eu estava no meio do campo. Meus braços estavam amarrados a uma cruz de madeira. Senti a palha saindo de dentro das minhas roupas e o peso de um saco de estopa costurado sobre meu rosto.

Agora sou eu quem fica aqui. Observando. Esperando. Sempre esperando por quem tiver a coragem de olhar para o campo depois da meia-noite. Shhh.